Retrocedendo


Aquela pessoa não é para você, não é quem você estava procurando, poderia ser um pouco menos falante, mais esperta, mais alta ou mais acessível. Tudo bem que você nem estivesse procurando ou mal saiba o que estava procurando, mas não é aquela pessoa. Então, conforme vai ficando mais difícil - porque, adivinhe, relacionamentos são difíceis , você usa isso como desculpa e simplesmente diz que seguirá em frente. Mas, espere!, a outra pessoa gosta de você, que logo sentirá o mesmo.

Você descobre o outro caminhando feliz pela rua, indo a festas, socializando, vivendo a vida, pintando o cabelo e buscando novos horizontes, embora um pássaro verde ou outro lhe confesse que a saudade toda anda bem mascarada. E você ri, ri mais um pouco para dizer que é bobagem, o outro seguiu em frente e vamos nessa também! Você, na verdade, ri do nervosismo interno de saber que também não admite a saudade. E é irônico sim que a saudade comece a bater na porta quando você imagina a pessoa feliz, saltitante, realmente seguindo em frente como os dois disseram que haveria de ser. Se tudo está nos conformes, o que é isso? Que vontade é essa de voltar atrás? Ah, meu querido, lá vem a vida rir dos nossos equívocos. É como ser criança e hoje gostar do amarelo e amanhã querer apenas o azul: nós nunca nos definimos.

Dando um jeitinho daqui e dali, você volta, com ou sem flores na porta descobre que precisa voltar e saber que o outro também quer que você volte. E ai dele que não queira! É a velha história do "eu só queria saber se você está bem", "acho que ficaram algumas coisas suas aqui", "vamos tomar um suco algum dia, conversar por conversar". Olhe pela janela: o arrependimento está tocando a campainha. E pronto, todo mundo cai na conversa de todo mundo, que nem diriam os fofoqueiros. Mas, ah, vai dizer que você não sabe que é covardia lutar com o coração? Vai dizer que nunca arremessou o celular e logo que ele tocou entrou em desespero querendo exatamente aquela mesma ligação? Vai dizer que você ganha dessas suas vontades todas? Ninguém ganha, contra o arrependimento de ter largado quem se queria tanto sem saber, ninguém ganha. Voltamos e deixamos voltar: seguir em frente é conversa para outra hora.

É cruel, você pode pensar. É brincar com os sentimentos jogar alguém ao vento e querer de volta. É, é tudo isso e muito mais. Porém, é compreensível que nem sempre o amor se anuncie logo de cara. Às vezes, os casais mais em sintonia acabam por se encontrar é no reencontro.

E você lá sabia que aquele beijo iria tão adiante? Quase todos nós precisamos de uma segunda vez, quando até os defeitos ficam apaixonantes. Que a vida perdoe a nossa cegueira!

Pode ser que seja mesmo assim: retroceder para dar as mãos. 

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